Tardes cariocas


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photo by John Lund
Não, isso não é o preâmbulo para outro rosário a ser desfiado diante das humanas hoje, nesse dia decretado para nos lembrar que seria preciso um dia para sermos lembradas...
Nada disso poderia ser mais equivocado. Afinal, um dos pares de cromossomos teve que se diferenciar diante da vontade de grandeza do homo sapiens que, muito complexo, não podia mais ficar brincando de meiose e mitose para garantir a sobrevivência da espécie. Além disso, nós existimos de fato e na lembrança, todos os dias: impossível não notar a presença da mulher ou do feminino no mundo.
Desculpem meninas, e meninos, mas todo dia eu procuro fazer poesia: hoje eu só quero fazer justiça. Muita coisa aconteceu na história da humanidade que me faz entender porque a mulher – mesmo sendo em maior número que o homem (outra necessidade biológica) - virou politicamente uma minoria com direito a ganhar uma bolota no calendário. Bolota que, aliás, me lembra tiro ao alvo. E aí me lembro porque – poesias e rosas a parte – eu não me sinto muito a vontade com o Dia Internacional da Mulher.
Nessa data, no dia 8 de março de 1857, em Nova York, trabalhadores de uma fábrica, mais exatamente 129 mulheres trabalhadoras, fizeram uma greve para exigir a redução da carga horária de seu trabalho, que era então de 12 horas por dia. Era o tempo de um capitalismo recém-nascido, infantil - e de empregadores idem, que não satisfeitos em tirar da aristocracia seu poder, levaram junto sua vilania abençoada por Deus. E nesse tempo, o ato de empregados exigindo direitos era algo inaceitável, que devia ser severamente punido com, por exemplo, a polícia perseguindo as 129 mulheres, que recuaram para dentro da fábrica, e seus empregadores botando fogo na fábrica com todas elas dentro.
Hoje, no mundo inteiro, é oficialmente comemorado (?) o Dia da Mulher, nos lembrando dessa data triste e de outra tristeza: nos relembra a morte criminosa de mulheres lutando por direitos justos para qualquer sexo, e, principalmente, no avisa da intolerância insistente do ser humano, de todos os sexos. Na intenção de honrar a memória destas heroínas, pessoas corajosas que lutavam contra a injustiça, essa data acaba por ressaltar nossa capacidade de criar datas comemorativas para compensar a pequenice histórica de nossas almas, que, pior, é tão discutida e aceita seriamente como "natural". Natural é que todos possam ser igualmente felizes, e igualmente respeitados pela sua condição básica. De seres humanos? Não, de seres vivos. É a vida que nos faz dignos de respeito e amor.
Nesse mundo que persigo, não faz sentido que se comemore o dia de um tipo de alguém, pois seria tão nonsense como comemorar o dia de todos. Nesse mundo que eu quero viver, se as pessoas abrem a porta para mim, ou seguram minha mão para eu sair do carro, é porque é bom ser gentil com o outro, e não simplesmente porque eu tenho um par de cromossomos diferentes. O mundo no qual eu acredito é um mundo onde homens também recebem flores, pois eles também merecem ser amados, e seus feitos lembrados, e seus sacrifícios engrandecidos. O mundo que quero ajudar a construir é uma sociedade onde mulheres também sabem ser perfeitas cavalheiras. Um mundo onde não existam pedestais é um lugar onde as pessoas podem andar sobre o mesmo chão, compartilhar a mesma vida e valores, e melhor: onde não vão cair de lugar nenhum.
Afinal, nesse mundo nossas almas seriam tão maiores que calendários e intolerâncias, do que podes e não podes, que não haveria lugar para tanta gente num único pedestal: o planeta inteiro já estaria literalmente mais elevado. E no dia que o mundo for assim nós seremos tão mais livres - mulheres, homens e seres do sexo que bem quiserem – que esqueceremos de criar uma data comemorativa para fato tão feliz.
Quando esse dia chegar, nossa folhinha estará muito ocupada com as lembranças dos dias que já vivemos, e nós, completamente entretidos com cada sonho que queremos realizar em cada um dos dias que ainda nos resta em nossos calendários...
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Fabiana Motroni
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Fabiana Motroni
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by John William Waterhouse
sinto esse vento
frio e forte
que vem de algum lugar em você
minha alma se refria
espirra e enche os olhos de água
meu coração quase pára
e pensa se quer bater
um vento azul
mercuriano
que entra ano, sai ano
me abre a janela do corpo
me invade e revolve assim
corre o chão com doze cavalos
o sente sem sequer tocá-lo
e quando brisa chega ao fim
meu amor tem uma só asa
a outra é minha e com ele guarda
num lugar ao norte de mim
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Fabiana Motroni
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Como vocês podem ver, faz muito tempo que eu não posto nada aqui. E quando eu já achava que fazia parte de um grupo de desastrados blogueiros que inauguram blogs e não escrevem quase nunca, eu me dei conta que eu estava na verdade vivendo uma crise criativo-existencial pela qual passam todos criadores/escritores/artistas, e, consequentemente, blogueiros. Não que eu não tenha nada pra falar: o pessoal diria o contrário, me pedindo até pra falar menos. Mas eu ainda estou me adaptando ao fato que eu posso falar por aqui também. Blogar ou não blogar, eis a questão. Blogar sempre? Blogar de vez em quando? Blogar só quando der vontade? Se não tiver nada pra blogar, melhor ficar quieto? Se não sabe ainda, assista o vídeo enquanto você pensa a respeito... É o que vou fazer por enquanto... : )
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Fabiana Motroni
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foto by daniboy, flickr
Todo dia é a mesma coisa: tem gente que nem me dá um oi e já pergunta se finalmente postei algo novo. E não adianta explicar que o blog ainda está em fase de teste, que pretendo mexer no layout, não adianta. Então hoje eu desisti: vox filii, vox dei...
Não sei se é o frio ou é a febre. Talvez seja porque desenterrei uma poesia que já nasceu com endereço certo e eu nunca mandei entregar. Mas com certeza é porque me dei conta que tudo está sempre em fase de teste, e nem por isso a vida deixa de acontecer.
E assim também são as palavras, transitórias. Pois o que elas carregam, isso sim permanecerá.
Descortina
O erotismo é o interdito de tudo
É o vir a ser que nos segura a voz no instante
É um desejo de veludo
Incessante
De transparência em que se toca no olhar
De silêncio que transpassa os gemidos
Do vão entre o Aleph e o resto de Borges
Do quase toque de dois corpos exauridos
É poema que não vira letra quando finda o ato
É a fermata do corpo em arco
E um vento fraco a balançar a cortina
É o espaço-tempo de amar
em que pende mulher e menina
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Fabiana Motroni
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foto by fabi e geo
Melhor do que finalmente ter coragem de publicar meu blog, é saber que os amigos gostaram dele a ponto de me mandar um texto para ser publicado aqui... : ) Pois uma das coisas que mais caracteriza a blogsfera é o fato de um blog ser, antes de tudo, um diário pessoal. E para a maioria dos bloggers isso significa publicar prioritariamente suas próprias expressões e impressões sobre o mundo e sobre a vida.
Mas não aqui nesse blog. Meus amigos me conhecem o suficiente para saber o quanto eles fazem parte da minha vida: muito. Muito do que sou, muito do que penso, muito do que será publicado aqui, é fruto dos meus encontros com essas grandes pessoas que tive o privilégio de conhecer um dia.
Por isso, faz todo sentido do mundo eles aparecerem por aqui para recitar um poema e contar uma história, enquanto tomam aquele café coado que eu adoro fazer. Assim como minha casa e minha vida, meu blog tem que estar sempre cheio de gente...
E, leitor desavisado, não se preocupe: esses amigos, cada um à sua maneira, são grandes artistas. Sua viagem até aqui vai sempre valer a pena... : )
Roma e o tempo
por Maysa Monção Gabrielli
um passarinho pousa no largo Corrado Ricci
corta
o homem ri, a barriga oblonga
uma foto não prende o tempo
(a Alessandro, garçom do largo Corrado Ricci)
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Fabiana Motroni
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Marcadores: comentário pode ser poesia, dia da poesia, dia internacional da poesia, Fabiana Motroni, poesia, poesia gera poesia
vai ter arte e amigos
(e a entrada é de graça)
Deixe de lado a preguiça
e a prosa do dia a dia
traz sua verve e a vontade
de ouvir
e dizer
poesia
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Sarau do Dia da Poesia 2009
Data.........DOMINGO, DIA 15 DE MARÇO
Horário....a partir das 18h
Local........Espaço Cultural Alberico Rodrigues
Praça Benedito Calixto, 159 - Pinheiros
Entrada Franca
www.albericorodrigues.com.br
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No próximo domingo, dia 15 de março, às 18 horas, o Espaço Cultural Alberico Rodrigues abre mais uma vez suas portas e seu coração para apoiar os artistas da cidade na missão liricamente árdua de plantar e colher poesia: vamos nos encontrar para celebrar o Dia da Poesia, comemorado nacionalmente todo dia 14 de março.
Entre um verso e outro, o sarau vai lembrar o aniversário de nascimento do poeta Castro Alves - que inspirou a criação do Dia Nacional da Poesia - e prestar homenagem póstuma ao fotógrafo, jornalista e poeta Eduardo Barrox, também aniversariante, editor do Jornal da Praça Benedito Calixto e do Tablóide Café Literário.
Estarão presentes artistas, poetas, escritores, representantes de vários movimentos culturais da cidade de São Paulo, entre eles Alex Menezes, Ana Rüsche, Celso de Alencar, Cristina Camaleoa, Cesar Silveira, Débora Aligieri, Fabiana Motroni, Flávio Alberoni, Flávio Amoreira, Ivan Antunes, Jarder Cruz, Joel de Oliveira, José Roberto Xavier de Paiva, Ligia Piola, Lilian Alves, Marcelo Ribeiro, Maria Célia Ladeira, Rebecca Navarro, Rodolfo Coelho, Sandra Falcone, Ulisses de Freitas, Valdete Pereira e os poetas maloqueiristas Pedro Tostes, Caco Pontes e Berimba de Jesus, entre outros.
Direto da ponte-aérea, o ator e poeta Bayard Tonnelli também participa do encontro, trazendo um pouco da poesia carioca com seu recente livro Dzi'in'Verso.
E para podermos levar um pouco mais de poesia pra casa, o Espaço Cultural Alberico Rodrigues realizará uma venda especial de livros de vários poetas contemporâneos, com preços promocionais de R$ 4,99 e R$ 9,99.
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"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta."
Cecília Meirelles
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Fabiana Motroni
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Marcadores: all star, amigo, conversa, conversas, elevador, encontros, endereço, laranjeiras, música, nando reis, poesia, rio de janeiro, tom, vocabulário, voz
A linguagem
é como uma pele:
esfrego minha
linguagem
no outro.
É como se eu
tivesse palavras
ao invés de dedos,
ou dedos
na ponta
das palavras...
Roland Barthes
você
coloca as
palavras
no mundo
elas se
espalham,
vão livres,
dão frutos,
fazem sua
própria
magia
são
sementes
para outras
poesias
